28 de julho de 2009
[sem título]
Fechem-se as casas.
cale-se o leve rumor da passagem.
"Estatifique-se" o momento
E deixem-me no meio do nada.
O corpo que se sente ao de leve no silêncio,
No vazio dos ouvidos
E que encha, a cântaros, os olhos adormecidos,
Os olhos inchados de secura óptica,
Sedentos da verdade do mundo,
Cansados da verdade dos Homens.
Dai-me solidão. Dai-me paz.
(Aqui parado sinto o mundo a pulsar.
Sinto-o com a certeza de ser eu também.
Sinto-o com a certeza de quem sente
Aquilo que é seu.
Porque o mundo aqui, neste momento parado,
Neste momento hipnotizado pela minha vontade de silêncio,
Sou eu e o que os olhos me trazem.)
05/09/08
10 de junho de 2009
29 de maio de 2009
Fumar
Por vezes sinto a necessidade de um cigarro: não do relaxante influxo da nicotina, nem do nevoeiro intoxicante da combustão do tabaco, mas do alheamento, da cortina prateada com que o acto de fumar envolve uma pessoa.
Reparo muitas vezes no ar de ancião com que os fumadores ficam quando são obrigados a vir cá fora: é quase como se se viessem sentar à sombra de algo maior; em cada 'passa' parece que sorvem o mundo com mais intensidade do que os outros, retiram-lhe essência para depois a analisarem profundamente enquanto, com a calma de quem tem nos bolsos todo o tempo, bufam os vapores de um comboio que viajou por terras infinitas.
19 de maio de 2009
Anotação XXII
2 de maio de 2009
Sabedoria
Por esta razão, não é supreendente que também a sabedoria esteja mesmo debaixo das nossas frondosas fossas nasais. Muitos podem dizer que não: que a sabedoria é uma coisa altamente complexa e que se vai ganhando à medida que empurramos o nosso tempo para o fim. Sim senhor, bem visto, a questão é que há livros, provérbios e uma epidemia, para a qual não há cura, que se chama cultura. Este tripé suporta um enorme vaso de sabedoria para dentro do qual cuspiram muitos homens as mais sublimes e geniais considerações sobre a vida, o mundo e o homem. Pois é; e então porque é que continuamos a tropeçar? Porque continuamos a andar feitos macambúzios a varrer o chão com as mãos? Eu acho que talvez isso se deva à necessidade que temos de tocar nas coisas; ao nosso cepticismo sensorial. Mesmo os mais "ovelhas" têm essa necessidade, quase infantil: não acreditam que é quente enquanto não se escaldarem; não acreditam que aleija enquanto não se magoarem; e por aí fora.
Já li muitas coisas bonitas sobre a vida; já ouvi óptimas crónicas de costumes, critícas incríveis aos nossos hábitos, e assim como eu, toda a gente já terá ouvido. Isso mudou alguma coisa? Continuamos a errar da mesma maneira, continuamos a sofrer desamparadamente da mesma maneira; insistimos em sermos da mesma maneira enquanto não sentirmos na pele o ferro quente a que costumamos chamar sabedoria.
Por isso, por mais que saibamos a teoria, ela não nos serve de nada enquanto não a exercitarmos. O problema é exercitá-la: no fundo, viver é um desporto muito imprevisível e não depende de nós escolher quando e como o vamos praticar. Mas nós não vivemos a toda a hora?, isto é, estar vivo não é uma condição inerente à nossa existência? Bem, sim e não - biologicamente sim, mas, humanisticamente, não. O que interessa para a sabedoria não é a longevidade temporal - podes ter 150 anos e ser um autêntico idiota; o que interessa é o tempo útil que passaste a batalhar contra o meio que te envolve, o tempo que perdeste a resolver os teus problemas e a contrariar o peso do mundo que insistentemente te empurra para o chão. É assim que exercitas a sabedoria que vem nos livros - que é a tal teoria. Pois então, impõe-se que vivâmos; impõe-se que, qual miudagem travessa, nos besuntemos na lama da vida, para sabermos de facto do que ela se trata.
N'A mulher certa, Sandor Marai, na voz da sensata e perspicaz Judit diz: "Apiedei-me dele, por ter crescido num quarto desinfectado como uma sala de operações. Tive a sensação de que alguém educado num ambiente assim não pode ser uma pessoa completa e saudável... só pode parecer!... Assemelhar-se a uma pessoa. Foi o que senti."
21 de dezembro de 2008
Anotação XXI
Que somos mais para além de experiências
de nós próprios em nós próprios à procura
da nossa identidade própria?
24 de novembro de 2008
Anotação XX
1 de março de 2008
27 de fevereiro de 2008
Anotação XVIII
São duas buscas sem fim, mas a última não traz esperanças impertinentes...
25 de fevereiro de 2008
Merecia ser Rasurado nº 3
P’ra Ti Mundomem.
O som que é mudo para ti,
É dor de morte em espaço meu,
É lanho aberto à força do bisturi
impiedoso do destino.
Sou corpo descarnado As partes por aí,
Em lividez exangue de albino.
A mudez que vês neste som,
Tamanha! – d’Este a’Oeste se via,
É, sem saberes, a protecção
que te torna sol de alegria.
Assim és forte como um verão
Que, distraído em euforia,
Esquece o cinzento – a próxima estação.
E passa o tempo, o som não!
Oiço-o furtivo, vigilante,
Com cuidado de ladrão
que busca numa dormente estante
Consolo triste p’ra contínua rejeição.
E assim medra a solidão,
Como erva selvagem a florir,
Como senhora que sem mão
do Homem (que lhe custa a ouvir),
abre caminho pela escuridão
da terra que te está a cobrir.
E Homem vive a besta da Terra,
Homem vive, dono de tudo,
Dono do mar, dono da serra,
Senhor do conhecimento e do estudo.
Mas que senhor é esse, que sapiente animal?
Que dizendo-se racional nem tem sequer vontade?
Digo-vos eu: é o que se sente divinal
quando os únicos haveres da vida são exterior e vaidade;
E que perturbado pelo torpe barulho social
Não consegue ouvir o doloroso som da verdade!
E doloroso sendo, acho
estoicismo que em mim nunca vi;
Que vale a pena ouvir, seja ele baixo,
24 de fevereiro de 2008
palavras
"Achava absurdo e infame fazer a corte à prima... Mas involuntariamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho, e de pôr enfim os seus lábios numa face onde não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a província de Portugal, sem encontrar nem aquela linha de corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que não voltava."
Eça de Queirós, "No Moinho" in Contos
20 de fevereiro de 2008
Competitividade
Compreendo a competitividade humana, percebo a sua importância: sem ela a espécie não seria o que é hoje. Contudo, não descortino a razão pela qual, à semelhança de muitos traços dessa animalidade primária de outras eras mais selvagens, a competitividade cega e irracional não foi deixada de lado. É curioso que, hoje em dia, em que o Homem vive em casas que tocam o céu, construiu asas mais rápidas do que qualquer ave, faz cálculos astronómicos em milionésimos de segundo, continue a ceder a essa sua herança animal tão congénita como a própria necessidade de procriar.
A competitividade, na sua vertente irracional, torna as pessoas ridículas, isto porque a competitividade actual limita-se à cópia ampliada da conquista do vizinho: a preocupação em evoluir, em utilizar o desejo de superar o parceiro para crescer não existe. Existe sim uma enorme exibição de peças, sejam elas físicas ou não, na qual o mais evoluído, o mais proeminente é o que tiver a maior, ou pelo menos, o que assim o aparentar. Mais: a competitividade do Homem que se diz civilizado não fica por aqui; somada à fixação no tamanho, há ainda a necessidade premente de espezinhar, logo que possível, o concorrente mais directo, de eliminar potenciais rivais, de tornar a tarefa tão fácil que se possa, por algum tempo, estagnar a "evolução".
16 de fevereiro de 2008
15 de fevereiro de 2008
Mulheres
É tocante a influência dos passos de uma mulher: tanta leveza, tanta pureza, tanta calma que emana de passos, à primeira vista, tão comuns como outros quaisquer. Gosto de olha-las, sem desejo, sem pensar sequer, só deleitar as retinas na infinita graça que emanam, na beleza profunda que transportam. Como as amo! O homem não tem que amar o concreto, tem que amar o geral, amar a Mulher, toda ela de luz, de paz; toda ela capaz de matar o mais poderoso tormento com o beijo do olhar manso, com a coberta do abraço terno... Mulher é sinónimo de poder, de beleza, de graça, de tudo!
É o sentido não carnal da mulher que me faz ama-la, a eterna aura de serenidade, de mansidão; a dor de não poder ser imenso para a abraçar em toda a extensão!
José Maria Guerreiro
20 de janeiro de 2008
sem título
Não. Nem me imagino a reclamar, que aliás, é o que toda a gente sabe fazer. E a culpa é sempre deles. Incrível.
Não me vou pôr com mensagens optimistas, que neste momento são um pontinho insignificante num pano bem negro. Enfim. Qual é o problema? Muitos. O primeiro e principal é haver muita coisa. Coisa a mais nunca fez bem a ninguém. Podem chamar-me antiquado que aceito com todo o gosto e com uma ponta de orgulho. Hoje não passa um dia em que não surja algo novo, algo que requer toda uma nova contextualização, novo estudo, sei lá, o mundo parece girar rápido de mais. E nem pára para dormir. E assim, com velocidades estonteantes, o homem, partícula de pó, tem que se adaptar. Há quem diga que o mundo existe porque nós existimos e não o contrário. Então, o mundo está como está porque o fizemos assim, porque, em primeiro lugar, quem mudou fomos nós. E o que mudamos? Bem... Generalizando, tornamo-nos mais animais. Mais competitivos, mais irracionais, irreflectidos, mais irresponsáveis. Tornamos o valor das coisas uma questão de moda. As coisas são boas hoje e amanhã são porcaria. Fazemos coisas sem pensar nas consequências, procuramos fugir a responsabilidades e atiramos a culpa, covardemente, para os outros, como se nós, na nossa incompetente e infantil existência, não fizéssemos nada mais do que ver o mundo a acontecer. Solução? Desenterrarmos o que está enterrado: os princípios, os valores e, sobretudo, a boa-educação. É verdade, isto é uma cambada de mal-educados, arrogantes e "narizes empinados". Por enquanto ainda há para onde fugir... mas por pouco tempo.
14 de janeiro de 2008
Anotação XVI - O Óbvio
Muito há para dizer sobre o óbvio, e obviamente a primeira coisa que nos surge é o facto de ser algo terrivelmente ignorado. "Por ser óbvio vou omitir, toda a gente já sabe". Esta é uma ideia corrente que penso estar errada. O facto de ser óbvio faz-nos insistir pouco na ideia ou na solução ou o que quer se seja que o é. Desta maneira acabamos por perder o óbvio quando, por ser óbvio, nunca devia ser perdido, já que o que é óbvio é básico, e como o próprio nome indica, não se deve perder (o que seria dos copos sem base).
Provavelmente o que é óbvio decorre de processos mentais tão enraizados na nossa natureza humana que conduzem inexoravelmente e em todos os casos, ou seja, em todas as pessoas, às mesmas conclusões. Contudo, sendo o homem todo diferente na sua unidade, o óbvio de uns é pouco óbvio para outros, portanto o óbvio varia, logo o óbvio nem sempre é óbvio o que o torna pouco óbvio e sendo ele pouco óbvio deve ser referido vezes sem conta para que ninguém o esqueça.
Comecei por dizer que muito há para dizer sobre o óbvio e acabo a dizer o mesmo. Embora pareça, o óbvio não é supérfluo. E tudo isto porque a Anotação XVI é estupidamente óbvia:
Na vida, a única regularidade é a irregularidade.
9 de janeiro de 2008
6 de janeiro de 2008
Merecia ser Rasurado nº 3
Caem por perto folhas de uma vida que está morta,
Sinto-as, suaves, silenciosas a cair,
E vejo como as lágrimas da perda caem também.
E é com música que me engano,
Que me esqueço que o mundo escamoteou o meu eu,
Que a vida se lembrou que aquilo não era meu,
Que sou eu então, senão uma fantoche de alguém que nunca me disse que existia?
Que dá e que tira, que mal nos deixa saborear nos está imediatamente a tirar?
Não me queixo de não ter saboreado.
Queixo-me da farsa em que me tornei por perder,
Perder-me e ficar só, sem nada, sem mim.
Queixo-me de ficar só com cacos,
Cacos que supostamente tenho que juntar,
Para fazer um novo eu,
Para construir outro que substitua o que fui.
Não sei, não posso e não quero.
5 de janeiro de 2008
22 de dezembro de 2007
sem título
Nesta época de festas abundam as saudações e os desejos de bom natal e próspero ano novo. É algo que se repete há imenso tempo e que no fundo não quer dizer rigorosamente nada.
Com o advento das mensagens por telemóvel o "bom natal" tão naturalmente dito no final de uma conversa ou a um funcionário de uma loja, ganhou novas e mais abrangentes dimensões, difundindo-se electromagneticamente pelo espaço permitindo que cada vez mais pessoas pensassem que do outro lado há alguém que ainda se lembra delas. Para essas pessoas dirijo-me agora com algo que elas provavelmente já sabem: a maioria das mensagens que recebes são iguais a muitas outras, letra por letra, só a recebeste não porque o emissor se lembrou de ti mas porque estavas, afortunadamente, na sua lista telefónica, a qual ele seleccionou massivamente para destinatário da dita mensagem.
Tudo que acontece nesta época não é exclusivo dela, como aliás nada é exclusivo em lado nenhum, contrariamente ao que se diz. Ora, sabendo que esta falta de intenção nas mensagens de natal abundam por esse ano fora, penso que a melhor atitude que se pode tomar relativamente às expressões de amizade e cumplicidade dos outros é a indiferença. Ninguém diz nada com intenção, ninguém diz o que realmente sente. O que fazem é pegarem em falas cliché e atirarem-nas ao ar em momentos oportunos, ficando eles bem vistos pela sua sensibilidade e bonomia e livrando-se de um momento embaraçoso em que viram as costas e mandam os outros à merda, porque é isso que realmente sentem. Desta forma, com abraços e beijinhos, com os irritantes "gosto de ti" e os "adoro-te" se constroem relações aparentemente fortes mas que têm alicerces na areia, relações de um vácuo sentimental alarmante.
É curioso como as palavras perdem o sentido, como são modeladas artificialmente pela mente calculista de pessoas que, para atingirem propósitos egoístas, atiram, quais guloseimas de baixa qualidade, sentimentalismos para o ar.
Vergonha em vós!