22 de dezembro de 2007

sem título

Nesta época de festas abundam as saudações e os desejos de bom natal e próspero ano novo. É algo que se repete há imenso tempo e que no fundo não quer dizer rigorosamente nada.
Com o advento das mensagens por telemóvel o "bom natal" tão naturalmente dito no final de uma conversa ou a um funcionário de uma loja, ganhou novas e mais abrangentes dimensões, difundindo-se electromagneticamente pelo espaço permitindo que cada vez mais pessoas pensassem que do outro lado há alguém que ainda se lembra delas. Para essas pessoas dirijo-me agora com algo que elas provavelmente já sabem: a maioria das mensagens que recebes são iguais a muitas outras, letra por letra, só a recebeste não porque o emissor se lembrou de ti mas porque estavas, afortunadamente, na sua lista telefónica, a qual ele seleccionou massivamente para destinatário da dita mensagem.
Tudo que acontece nesta época não é exclusivo dela, como aliás nada é exclusivo em lado nenhum, contrariamente ao que se diz. Ora, sabendo que esta falta de intenção nas mensagens de natal abundam por esse ano fora, penso que a melhor atitude que se pode tomar relativamente às expressões de amizade e cumplicidade dos outros é a indiferença. Ninguém diz nada com intenção, ninguém diz o que realmente sente. O que fazem é pegarem em falas cliché e atirarem-nas ao ar em momentos oportunos, ficando eles bem vistos pela sua sensibilidade e bonomia e livrando-se de um momento embaraçoso em que viram as costas e mandam os outros à merda, porque é isso que realmente sentem. Desta forma, com abraços e beijinhos, com os irritantes "gosto de ti" e os "adoro-te" se constroem relações aparentemente fortes mas que têm alicerces na areia, relações de um vácuo sentimental alarmante.
É curioso como as palavras perdem o sentido, como são modeladas artificialmente pela mente calculista de pessoas que, para atingirem propósitos egoístas, atiram, quais guloseimas de baixa qualidade, sentimentalismos para o ar.

Vergonha em vós!

20 de dezembro de 2007

Anotação XIII

Nada é difícil excepto a adaptação.

19 de dezembro de 2007

Anotação XII

Por mais bela flor que lhe possam dar,
O Homem sabe sempre como a desvirtuar.

15 de dezembro de 2007

Merecia ser Rasurado nº 2

Cada vez menos sei se vejo verdade ou encenação,
A ida ao teatro já não custa bilhete!

Caminham pelo palco,
Ostensivos, perfumados,
Muitas vezes sem o que comer,
Outras vezes de barriga vazia. É esta a gente que temos.

Ninguém cuida da realidade,
Ela que sempre cuida de nós,
Pois mais tarde ou mais cedo,
Quer o queiramos ou não,
Lá está ela a denunciar a nossa casta e atirar os adereços ao chão.

Ninguém atenta no que é,
Só no que parece que é.

Toda a gente em correria em busca do mesmo:
Posição. Seja ela verdadeira ou falsa,
Que interessa que seja de areia?
O que os outros vêm, isso sim,
Nem que seja por um dia,
Um instante, um segundo,
Quero que me admirem em todo o meu esplendor,
E que interesso eu? Nada,
Só o que meu esplendor, o lanho que tenho na cara
E os trajes que a custo levo.

Não quero ouvir mais nada,
Para quê? Não quero saber,
Quero parecer, para isso respiro,
Para isso trabalho e a mais não olho,
Só à minha condição.

Quando só, quando sem ninguém me vejo,
Posso finalmente deixar de brilhar,
Tiro os trajes e não sou eu,
Sou outro, caído, tísico e lazarento,
Feio e nojento.
E depois? Nada existe se eles nunca o virem,
Só existe aquilo que eles tocam com os olhos,
Tudo o resto é falso, não interessa.

Assim se vive a vida, dando-lhes o que querem,
Nunca nos dando o que queremos,
Ou melhor, dando-nos aquilo que eles querem que queiramos.

Somos feios para sempre, repugnantes em cada acção,
Se por eles deixamos de ser
O que temos no coração.

8 de dezembro de 2007

Anotação XI

Os Homens. Ao tentarem ser diferentes tornam-se irremediavelmente todos iguais.

Desejo

É preferível não ter. Ter é desvirtuar. Mantém o desejo desejado, não o tornes realidade porque à medida que o realizas vais deixando de o desejar. Sonha apenas.

O ideal seria desejar o que já se tem!

Merecia ser Rasurado nº 1

Podia ser Abril, Fevereiro ou finais de Janeiro
Podia ser Verão, com os dias pintados de açafrão.
Desde que à noite se lembrassem de pintar o escuro com luzinhas,
De encher os locais públicos com azevinho e ramos de pinheiro
Eu saberia que era Natal.

Se se esquecessem de o fazer, não fazia mal.
Desde que enchessem os centros comerciais, ruas de comércio
Com compras inúteis e falsas demonstrações de caridade,
Eu também sentiria o Natal, embora não tivesse a certeza que dele se tratava.
Afinal as pessoas são assim quase todo o ano,
A única diferença é a quantidade.
No Natal é tudo em grande:
Amizade
Solidariedade
Fraternidade
Amor
E sobretudo Falsidade. Acho bem.

7 de dezembro de 2007

Anotação X

A energia que não temos é a que nos acode quando precisamos.

3 de dezembro de 2007

Números.

O um, como número, é insignificante, no entanto é enorme perante o zero.
O problema dos um é esquecerem-se da sua insignificância.
O problema dos zero é olharem para os números negativos e não se preocuparem em ver para além do um.

2 de dezembro de 2007

Anotação IX

Ninguém entra num relacionamento para fazer o outro feliz. Entram nos relacionamentos porque vêem neles um atalho para a felicidade. E não me venham com tretas sentimentalistas, não passa de conversa feita na qual ninguém acredita porque nunca ninguém pensou nela, limitou-se a repeti-la.


E mais: ninguém fica feliz com a felicidade dos outros. Ou a invejam ou lhes é indiferente.

23 de novembro de 2007

Brincadeiras Ridículas

É ridículo quem ridiculariza o ridículo. Ridículo é todo o homem que não quer parecer ridículo. Porque a humanidade é ridícula em toda a sua existência e lutar contra natureza tão enraizada é ridiculamente ridículo. Aquele que não atenta na sua condição ridícula é naturalmente natural e ridículo, o que lhe retira meio peso de ridícula presunção por não pensar que por pensar que não é, deixa de ser ridículo. Ser é ser ridículo.

22 de novembro de 2007

anotação VIII

O modo gratuito e inopinado com que as pessoas se dão não revela inocência, revela uma estupidez abominável.

21 de novembro de 2007

Outono e a Depressão Sazonal

Embora atrasado, lá chegou a correr, com vento frio e paisagens de um calor inefável. Eu perdi-me a olhar.

As chaminés derramam fumo,
Entregando-o cuidadosamente ao vento,
Esse caprichoso e pertinaz atrevido.

E ele esvoaça, poucos metros apenas,
Até desaparecer para um lugar que com olhos não é sentido.

É curioso como ele desaparece,
Nunca no mesmo sítio,
Nunca da mesma forma.

Parece que o Outono é uma chaminé
Uma chaminé diferente.

Quando o vento vem, ele liberta,
Copiosamente, o seu fumo sentimental,
E ele envolve-vos, invisivelmente,
Pois só os que enxergam a chaminé
Podem ver, momentaneamente, aquela massa espectral.

18 de novembro de 2007

Júpiter e as Luas

O Sol e o seu respectivo sistema de planetas têm, diz a Ciência, 4,8 milhões de anos. Para este texto gostava de convidar o leitor a considerar tudo isto falso e a deixar-se convencer pelo que vou dizendo.
No início dos tempos, Júpiter, um gigante planeta constituído por hélio e hidrogénio filho de Saturno e Cíbele, decide criar algo para povoar o espaço sideral que na altura vivia uma desolada solidão. Desta feita, cria 63 satélites que coloca a orbitar perenemente à sua volta com movimentos pseudo circulares.
Estas luas ganham então vida pelo movimento e como qualquer ser dotado dessa centelha, iniciam um sistema de competição no qual vence quem orbitar mais rapidamente o grande Júpiter. Óbvio que aquelas que se encontravam mais próximas do Grande Deus tinham vantagem sobre as que se encontravam mais distantes. Por isso, as mais distantes diziam-se azarentas, diziam que as luas mais próximas haviam sido beneficiadas por Júpiter. Outras, ainda das que se encontravam longe do grande planeta, diziam que a sua posição desfavorável para a competição era um castigo e consideravam Júpiter um déspota, todavia, adoravam-no e faziam tudo para o agradar na esperança que um dia Ele as pudesse mover para uma posição mais favorável.
Enquanto todo este tumulto de lamentos e súplicas se vivia na periferia do Grande Planeta, as luas mais próximas aclamavam e bradavam os céus, dizendo-se abençoadas e preferidas, uma vez que eram as mais rápidas, as mais brilhantes e as que sentiam mais intensamente o poder gravítico daquela Monstruosa Massa de Gás.
Naquela altura as luas viviam assim, ora dizendo-se azaradas e mal-amadas por Deus, ora achando que tudo o que tinham vinha de Deus. Devo então dizer que estavam todas totalmente erradas. Júpiter criou o sistema de luas suficientemente independente para ter que intervir e ajustar alguma coisa. A sua existência, enquanto deus, limita-se a uma plácida observação da Criação. Enquanto observa, espera que alguma lua sucumba à sua força gravítica e se junte a ele.
Ridículos são aqueles que acreditam que "lamber as botas" a Júpiter os vai salvar depois de terem feito tanta batota na corrida da vida. Júpiter não quer saber, aliás, se quisesse, deixaria de ser Júpiter e passava a ser Terra!

15 de novembro de 2007

anotação VII

É curioso o modo como as pessoas lêem as críticas que lhes fazem: nunca são elas, são sempre os outros; e pior: não se limitam a ler a crítica e a pensar que são os outros os malandros, lêem-na, excluem-se dela e num último esforço de ousadia e descaramento criticam ainda mais os outros.

13 de novembro de 2007

Atitudes

Quem sou eu para falar disto? Ninguém! Percebo tão pouco disto como um padeiro percebe de canalizações, mas hoje estava a escrever e achei que seria interessante coloca-lo aqui.


"Para sociabilizarmos temos que nos mostrar prontos a apoiar os outros, temos que parecer o ombro amigo, temos até que escutar, aturar os outros; nesses momentos podemos não sentir nada a não ser uma grande maçada, mas o produto final, ou seja, a acção, vai ter uma importância crucial no modo como evoluímos socialmente.

Não critico quem tem estas atitudes, critico quem as tem por fora e não as tem por dentro. A atitude é a conjunção do pensado e sentido com o efectuado. Hoje libertaram-se um conjunto de atitudes que foram pré-programadas nas pessoas: estas não são realmente atitudes, são partículas soltas da atitude que se auto denunciam como tal: não passam da realização de um acto – não têm sentimento ou pensamento (podem ter pensamento, mas um pensamento egoísta de conquista sentimental no objecto em questão) que as anteceda, não há construção cognitiva que leve à execução na totalidade, há apenas a reacção reflexa de que se tem de dar apoio, que se tem de ouvir ou que se tem de aconselhar, nunca se sabendo ao certo o que se faz, sabe-se apenas que se faz alguma coisa e que essa coisa ajuda-los-á a garantirem gente à sua volta."

12 de novembro de 2007

Poesia II

Adeus de Eugénio de Andrade


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

11 de novembro de 2007

Velhos perdidos,
Vertidos de preto,
Esquecidos no bafio dos locais de culto.
São todos ignorados
Aos grupos nas bermas da estrada.

Na estrada o desfile continua:
Quem tem o melhor carro,
Quem tem o melhor namorado
Ou a mais bela companheira.
O mundo é isto, infelizmente tão pouco!

É fedorenta tanta perversidade,
Tanta falta de bondade e consciência.
A vida é mais do que eles a fazem,
A vida é mais olhar do que mostrar:
Contudo, hoje só se mostra, não se olha

E os velhos continuam perdidos,
Impregnados do bafio das sacristias,
À sombra na berma da estrada
A olhar, miseráveis, os que passam
E usam a vida só para mostrar
Nunca parando para os olhar.

Ser velho e ser criança são dois estados de grande impotência: no entanto ser criança tem vantagens sobre a velhice. É giro segurar no colo coisas fofas: faz parte da toillet...

10 de novembro de 2007

Tu e eu, Natureza

Os lençóis envolvem-nos,
Cobrem-nos,
Dão abrigo à nossa relação

Lençóis de uma brancura transparente
E mesmo assim totalmente opacos

Enroscas-te em mim,
Mordes-me de manso,
Cicias-me no ouvido a brisa do Verão

Percorres-me o corpo com o calor do Sol,
Libertas o perfume da Primavera
Dos teus cabelos hipnotizantes

Eu vejo-me excitado,
Enlevado,
Fora de mim

Sinto a alma em erecção,
Mais uma vez me tocas,
E em palavras é a minha ejaculação!

8 de novembro de 2007

anotação VI

Todos somos maus, melhor, todos somos um monte de esterco: cada um de nós é a mais hedionda peça de porcaria que a superfície da Terra já teve o desprazer de ver. No entanto há quem se aproveite, há trigo no meio do joio. Há quem tenha vergonha da sua sórdida condição, há quem a conheça e odeie: essas são o trigo, são aquelas que travam duras batalhas contra si mesmas, contra a sua tendência para o egoísmo e para a inveja. Essas merecem respeito: tentar ser bom num mundo mau é de uma lucidez transcendental.