29 de setembro de 2007

Rectidão

Ninguém sabe o quanto me custa cair na vulgaridade de fazer um post só para derramar palavras de outrem.


Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos

Nunca conhecí quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não uni pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que hà gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

22 de agosto de 2007

Defeitos

Um dos meus inúmeros problemas reside no facto de eu ser instantâneo. As coisas aparecem com a mesma rapidez com que desaparecem na minha cabeça. Há coisas às quais não dou a menor importância e há outras coisas que acho que têm potencial. Quando encontro estas últimas, na maior parte das vezes e quando dignas de partilha, exponho-as aqui. O mais recente excesso de velocidade na minha cabeça foi uma clarificação do conceito que hoje em dia o senso comum tem de “defeito humano”.

Por definição, um defeito é algo que, comparado com um modelo (o mais próximo da perfeição quanto possível), apresenta diferenças. Talvez seja uma definição um tanto ao quanto redutora e simplista, mas cabe ao leitor pensar nisso (e a mim também numa fase posterior). Ora, tento em conta que socialmente costumamos distinguir as características das pessoas entre virtudes e defeitos, surgiu-me algo que achei curioso. Vejamos, é comum considerarmos geralmente o egoísmo, a falta de escrúpulos e a indiferença perante a possibilidade de matar alguém (p.e.) como defeitos. Mas, posso garantir que estes presumíveis defeitos podem dar origem, independentemente da intenção que os precede, a boas acções, a acções que promovam o bem-estar de terceiros. Imaginemos três indivíduos, cada um deles com cada um dos defeitos que referi anteriormente; consideremos também que cada um deles tinha esse defeito isoladamente, por outras palavras, cada um deles teria apenas um dos que referi, por exemplo, um indivíduo egoísta não poderia deixar de ter escrúpulos. Postas estas condições, consideremos as seguintes possibilidades:

1 - o egoísta encontra-se sentado num banco de jardim, calmamente, a desfrutar de uma sandes. Entretanto, aproxima-se dele um jovem que lhe pede encarecidamente algo que comer. Como tem noção da necessidade por que passa o jovem ele dá-lhe a sua sandes. Este acto foi movido pelo seu egoísmo: como não queria chegar a casa e sentir-se mal por não ter ajudado quem precisava, ele preferiu dar a sandes, e suportar a partilha, do que não dar e suportar o sentido de culpa. Porque o egoísta não tem necessariamente de ser desprovido de sentimentos, pode ser alguém que gosta de ter um lugar só seu, um conjunto de bens os quais quer só para si. (para clarificar esta ideia seria precisa uma longa dissertação acerca do egoísmo, coisa que não vou fazer, não só por não conseguir, mas também porque mesmo que tentasse tornar-se-ia longa e enfadonha).

2 - o homem sem escrúpulos é polícia. A sua divisão encontra-se ocupada com um perigoso grupo ligado à máfia. Ele, como não tem escrúpulos, oferece-se para tentar uma infiltração com o objectivo recolher informações que ajudem a desmantelar toda a rede de malfeitores. A sua falta de escrúpulos, embora muitas vezes usada em situações menos lícitas, é nesta caso preponderante para que tenha sucesso na sua missão e consiga salvar muitas vidas que estejam à mercê da mão impiedosa da máfia.


3 - o homem que não tem problemas em matar vive num mundo com dois países. Um país onde há liberdade e um país onde não há. O primeiro quer libertar o segundo da opressão e para isso precisa de um homem capaz de suprimir o ditador que mantém refém o segundo país. O nosso homem é destacado e deste modo salva milhares de pessoas de uma vida pautada pelo eminente medo de serem mortas pelo déspota não tolerante.


Embora rebuscados e cobertos de suposições mirabolantes, estes exemplos procuram demonstrar que os defeitos podem dar origem a boas atitudes, ou melhor, a acções que promovam o bem-estar de terceiros. É claro que não se tratam apenas de defeitos no conjunto das características humanas que permitiram tal acção, mas a questão é que houve uma boa acção, houve algo que beneficiou outras pessoas.
É incontestável que todos temos virtudes e defeitos, mas muitas vezes os nossos defeitos, quando acoplados com alguma virtude ou algum interesse que tenhamos, geram boas acções. A minha intenção não é discutir até que ponto é mais importante o resultado do que a intenção, isso é uma discussão que me perturba porque eu mesmo a tenho comigo, a minha intenção é mostrar que, tendo em conta o que é um defeito, está errado dizermos que o ser humano tem defeitos (pelo menos os de carácter) porque estes podem dar origem a boas acções, acções que, quando comparadas com o modelo de perfeição que temos, são totalmente idênticas. Acho portanto que talvez fosse melhor, não só como atenuante para aqueles com um carácter auto destrutivo, passarmos a dividir as características humanas entre coisas melhores e coisas menos boas, porque, e isto sem exemplos porque seriam bem mais esquisitos e ininteligíveis, mesmo as chamadas virtudes, dão origem a más acções.


E é nesta onda de pacifismo e tolerância pela merda que o Homem é que termino. Talvez isto não seja mais do que uma tentativa desesperada de ver a Humanidade e eu mesmo com outros olhos, olhos mais optimistas e menos acusatórios, mas não interessa. Foi, como disse, um excesso de velocidade na minha mente e como achei que tinha potencial, escrevi.

30 de julho de 2007

Ultraje

Acho sincera piada a todo o mediatismo que agora envolve os Simpsons, a sério que sim. A mim, que sou fã, já me enjoa. Foi no decorrer desta divulgação em grande escala que me surgiu uma estória, que passo a contar entre bocejos e "esfregadelas" de olhos, porque a hora não é nada própria (2:12). Vou, cobardemente, culpar essa mesma hora por qualquer erro, incoerência ou estupidez no texto que se segue.

Desde que ouviu falar pela primeira vez dos Simpsons, Carlos ficou interessadíssimo. Viu. As expectativas foram superadas, achou imensa piada à família amarela que fazia com que os americanos gostassem de se rir de si mesmos. A partir desse dia, ainda os desenhos eram primitivos, procurou nunca perder um episódio, sedento de novas razão para rir e para pensar. Ora um dia começa toda esta promoção exaustiva do filme. Reportagens para a frente, entrevistas para trás, merchandising para os lados... De um momento para o outro toda a gente é fã dos Simpsons sem nunca ter visto o rabo gordo e amarelo do Homer. Um dia, Carlos ficou a saber que a sua escola iria participar numa reportagem em que se procurava demonstrar o impacto que a Família de Springfield tem nos jovens. Carlos ficou entusiasmado, inteirou-se imediatamente de tudo: como ia funcionar, o que se tinha que fazer para participar. O trabalho do aluno eleito era simplesmente responder a perguntas feitas por um jornalista depois de ter exposto em linhas concisas mas claras, a razão pela qual gostava dos Simpsons. Carlos, como é óbvio, participou e ficou apurado para a final, a qual consistia num teste geral sobre os Simpsons. O teste pareceu-lhe bastante elementar, no entanto, havia duas perguntas completamente fora do contexto: eram sobre os títulos em BD dos Simpsons. Ele já tinha ouvido falar, mas como era medíocre em inglês e não conhecia edições em português, Carlos nunca tinha lido nada disso. Por isso, deixou essas duas por fazer, não querendo estragar a sua óptima pontuação, com duas respostas dadas à sorte. Do outro lado da sala, estava Mário, o sujeito mais popular da escola que, desde que os Simpsons se tornaram moda, vestia "à simpson": sempre com uma t-shirt do Homer a apregoar ao consumo de cerveja e a uma vida em frente da “interessantemente escravizante” televisão. Nunca tinha prestado atenção à quando o tempo de antena era de Springfield, nem tampouco se interessava por animação, a questão é que ele queria aparecer na televisão e para isso estudou como nunca para este teste, estudo que, devido a uma mãe preocupada e cheia de papel que o fez aprender inglês, incluiu a leitura das BD's dos Simpsons. Mário vai representar a escola, Carlos fica a ver a sua oportunidade de demonstrar o seu amor pelos Simpsons a ser roubada por alguém que só deseja protagonismo e que só quer demonstrar o grande amor que tem à sua própria popularidade.

Embora rebuscada e altamente duvidosa, esta estória tenta na sua humilde riducularidade ser uma metáfora para o que acontece hoje em dia com os famosos, as causas humanitárias e as pessoas que realmente se dedicam e fazem alguma coisa pelos mais desfavorecidos. De facto, eu estou farto de ouvir falar em Mários, de os ver em capas de revistas e na televisão a falarem do quão importante é ajudarmos os mais pobres, estou farto da publicidade frenética e memorizada que eles fazem; estou farto de ver as pessoas que trabalham pelos outros serem relegadas enquanto as que dão a cara pela causa são louvadas e admiradas; estou farto de ver que se esquecem daqueles que realmente defendem a causa, que lutam por ela com o pouco que têm; estou farto dos famosos humanitários que tão depressa abraçam uma causa como a atiram para o caixote das coisas que os ajudaram a aumentar a sua popularidade. É triste, é revoltante. É um ultraje!

São 2:39. O sono continua a apertar-me a cabeça pelo que acredito que as coisas ali em cima (o texto) não estejam como eu gostava, mas tinha de ser agora senão, a preguiça que o sol emana misturada com o calor faria com que eu me esquecesse e nunca mais escrevesse aqui.

E assim vivemos...

28 de junho de 2007

Damn Love



E assim vivemos...

20 de junho de 2007

Coisas que te fazem rir

Ontem ou anteontem vi o Curto Circuito. E quem pensa que o vou criticar que se desiluda porque decididamente não o vou fazer! O que aconteceu foi que o tema era o mesmo do título: "Coisas que te fazem rir" e houve um espertalhão que enviou para lá uma SMS, que passou em rodapé, que dizia que o que o fazia rir era o Governo e o Alvim. O Alvim percebe-se, ele é bem engraçado, um pouco apalhaçado às vezes, mas muito engraçado, agora, o Governo?! Esta referência ao Governo como "fonte" de piada reportou-me para os lamentáveis comentários que muita gente, a maioria, faz à forma como o executivo trabalha. De facto, e avisem-me se eu estiver errado, as pessoas só sabem reclamar, dizer que o Sócrates é este e aquele, que é um palhaço e que é outras coisas mais embaraçantes; passam a vida a acusar o governo de esbanjar e de explorar o "Zé Povinho", até fizeram aquela cena deplorável nas comemorações do 10 de Junho. Mas o importante é saber o porquê destas críticas tão acutilantes à governação.
Numa primeira abordagem, podemos pensar na crise que o país atravessa, no decrescente poder de compra dos cidadãos, nos avultados cortes de pessoal na função pública, no excesso de burocracia dos serviços, nas deficiências desses mesmos serviços, etc, etc. Tudo isto são óptimas razões para encher a principal figura do Governo com nomes, mas depois de pensarmos um bocado, apercebemo-nos de que não é só por causa disso, na maioria das vezes acredito que nem pensam nisso, que as pessoas criticam o Governo: muitas vezes, e na tentativa de fugirem a uma explicação que os coloque no centro do seu próprio fracasso, alguns acusam o Governo, mudando as culpas de direcção e para se sentirem menos fracassados, menos desajeitados, menos incompetentes, menos malandros; outras vezes criticam porque fica bonito, porque os faz parecer intelectuais e bem informados, e nestes casos raramente sabem o que se passa em S. Bento; outras vezes a crítica nasce de uma simbiose entre as razões anteriores. O importante nisto tudo não é acusar as pessoas, como pensam que eu estou agora a fazer, mas sim demonstrar o quão ridículos somos quando criticamos, neste caso concreto, o Governo. Porque, e agora falo com certeza, todos aqueles que criticam desmesuradamente o Governo não saberiam para onde se virar se tivessem a seu cargo tão grande responsabilidade, e quando as críticas partem de pessoas assim, pessoas que desconhecem completamente o assunto, ainda se tornam mais lamentáveis.

Não estou a defender o Governo, aliás, detesto falar disto, não percebo nada, e era isto que as pessoas como eu deviam fazer, não criticar, falar ou julgar alguma coisa à cerca da qual não percebem nada. Mas desde sempre ouvi dizer que "Só fala quem tem que se lhe diga".
Para terminar, não estou a acusar todos os críticos do Governo, gosto bastante de ouvir aqueles que trazem argumentos plausíveis e instrutivos, agora aqueles que só sabem dizer que o Sócrates é um palhaço porque é e que anda sempre a viajar, desprezo.

E assim vivemos...

Em jeito de revista cor-de-rosa, este post traz um brinde: uma mudança de visual do blog. Espero que desta maneira vos seja menos doloroso olhar para ele : )

15 de junho de 2007

Tertúlia Cor-de-Rosa

Tenho tido algum tempo da parte da manhã e quando não faço outras coisas vejo televisão. Hoje passei pelo Programa da Fátima, na SIC, no preciso momento em que Cláudio Ramos, Maya, Daniel Nascimento e outra sujeita davam corpo a uma rubrica intitulada "Tertúlia Cor-de-Rosa" que tem como principal objectivo trazer até aos telespectadores as notícias mais "importantes" da imprensa cor-de-rosa. Pela descrição que fiz não se vê nenhum mal em toda aquela, se me permitem, palhaçada, no entanto tenho a dizer ainda mais qualquer coisa.
Primeiro: os "tertulianos", como são chamados os intervenientes na rubrica, criticam duramente determinadas figuras de acordo com um critério um pouco suspeito: se não gostam de fulano transmitem ao público a pior e mais horrenda imagem dele. Tendo em conta que a rubrica em questão é, para todos os efeitos, informativa, devia, acima de tudo, prezar pela imparcialidade.
Segundo: é feito um acompanhamento escrupulosamente completo da vida das figuras que passeiam pelo quotidiano social português. Nestes acompanhamentos incluem-se previsões (acho que nesse aspecto a Maya influenciou os colegas), possíveis justificações de determinados acontecimentos, onde os "tertulianos" procuram explicar porque é que determinadas individualidades agem daquele modo, enfim, uma quantidade abusiva de conversa sem conteúdo.
Terceiro, e em jeito de conclusão, aquilo não é nada mais nada menos que uma "brincadeira de amigos", bastante útil para quem faz e para quem conhece aqueles que fazem. Quem faz é promovido e quem conhece aqueles que fazem pode sempre ser defendido, caso o seu nome saia à praça.


Embora seja degradante, parece que muita gente gosta: "Conversas de Quintal" é a rubrica do "Você na TV" que apenas não digo que foi passada a papel químico da "Tertúlia Cor-de-Rosa" porque não tem gente famosa a discutir os “rosados factos”.

E assim vivemos...

13 de junho de 2007

Coisa

Excerto retirado de "Os Irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski

" «Que solidão?» pergunto eu. «A solidão que agora reina por todo o lado, especialmente no nosso século, e ainda vem longe o fim dela. Porque cada um, hoje em dia, deseja isolar cada vez mais a sua pessoa, quer experimentar em si mesmo a plenitude da vida e, no entanto, acabam num suicídio absoluto, porque em vez da plenitude da definição da sua personalidade entra num isolamento total. Porque todos, no nosso século, se separam, cada qual se isolando na sua toca, cada qual se afastando do outro, escondendo-se e escondendo o que possui, acabando por rejeitar os outros e ser rejeitado pelos outros. Acumula a sua riqueza em solidão e pensa: que forte eu sou, que rico... e mal sabe, o louco, que quanto mais acumula mais mergulha na impotência suicida. Porque está habituado a contar apenas consigo e, como unidade, se separou do comum, habituou a sua alma a não acreditar na ajuda dos outros, nas pessoas e na humanidade e apenas receia que o seu dinheiro e os seus direitos adquiridos se percam. Hoje, por todo o lado, a mente humana irónica começa a perder consciência de que o verdadeiro sustento do indivíduo não consiste no seu esforço pessoal e solitário, mas num esforço em comunidade humana (...)"

21 de abril de 2007

Incoerência

Olá. Com certeza já ouviram mais do que uma vez a expressão "Sinto saudades tuas". Quando alguém a utiliza está a atestar que sente Saudade e que essa Saudade, declarada por esse personagem, está-lhe intrinsecamente ligada, dependendo completamente dele. O que quis dizer é que a Saudade existe enquanto houver alguém para a sentir. Estou certo ou errado? Espero que respondas que estou certo, caso contrário as restantes linhas deste texto não farão sentido nenhum para ti pelo que te aconselho a parares imediatamente de o ler.

Ora, se a Saudade só existe enquanto houver alguém para a sentir, e tendo em conta que todos os seres dotados da capacidade de sentir Saudades são mortais, nunca será possível afirmar que a Saudade é eterna, uma vez que quem a pode sentir não o é. Então alguém que me explique porque raio é que continuam as floristas a colocar a frase "Saudade eterna de filhos e netos" nos ramos de flores, quando a Saudade é tão mortal como o Homem? Acredita que não percebo.

Não quero brincar com a morte nem coisa que se pareça, isto foi apenas um reparo. E já agora, o Amor, padecendo da mesma condição que a Saudade, também não é eterno, portanto parem de dizer que vão amar fulano ou sicrano para sempre porque não vão, e se o disserem vão estar a mentir, e mentir a alguém que significa alguma coisa para vocês é muito feio. Sejamos coerentes.

E assim vivemos...

5 de abril de 2007

sem título

Hoje sinto-me básico, mas apetece-me escrever e como já não escrevo há algum tempo, fica aqui uma "actualização" para os poucos que cá vêm regularmente.
Então é assim, eu tinha uma série de coisas para dizer, coisas que davam textos de muitas linhas, mas depois achava sempre que ficava mal, portanto não vou falar de nada disso, vou só dizer algumas coisas, coisas essas que espero que me surjam daqui a pouco porque neste momento não faço a menor ideia do que vou escrever a seguir.

No outro dia falaram da estória do copo meio cheio ou meio vazio, gira por sinal, e falaram do optimismo, do quão bom é ser optimista. Foi algo bom de ser ouvir! Mas eu pensei e achei que o optimismo não é o caminho, é um atalho, algo que não sabemos bem onde vai parar e que às vezes vai ter onde queriamos. Contrariamente, e por isso é que são antónimos, o pessimismo é o caminho, é por ele que chegamos ao sítio, independentemente do sítio ser bom ou mau. Provavelmente não faz sentido nenhum o que eu disse, mas não vou rever, escrevi, está escrito e eu só quero encher o espaço do blog, e escrever meia dúzia de babozeiras com erros ortográficos e gramaticais, se não é isso que tenho andado a fazer ao longo deste tempo todo. Mas o que eu queria dizer era que o pessimismo é uma estrada alcatroada, bem pavimentada, sem buracos ou pedras no caminho, embora esteja sempre sombria e seja ladeada de árvores que se assemelham a monstros. O optimismo é aquela estrada que é muito gira no início, é a estrada que atravessa planícies verdejantes e assim, mas que é incerta, tanto pode levar ao buraco mais medonho do mundo, a desilusão, como pode continuar ao longo da planície e fazer-nos, estupidamente, pensar: "afinal tinham razão, vale a pena ser optimista, acreditei que tudo ia dar certo, e deu!Iupi! É tão bom ser optimista!!". É de facto estúpido este pensamento. Adiante. Como eu dizia, é importante ter os pés assentes na terra, e melhor do que ser pessimista de gema é ser um pessimista moderado, ou um optimopessimista, ou um pessimista ligeiramente optimista, porque já o povo diz que no meio está a virtude e é bem verdade, embora ela goste de ir até ao lado esquerdo e assim, mas isso são coisas que temos de esclarecer com a própria.
Quer dizer, supostamente os globos de ouro deveriam ser uma gala séria, um evento onde se enalteciam os feitos daqueles que se mostraram bons no que faziam em determinadas áreas, algumas nem sei porque lá estão, mas ainda disfarçam. O grande problema são as novas categorias que foram adicionadas: Globo de Ouro para melhor beijo?! Globo de Ouro para melhor vilão?! Globo de Ouro para melhor herói? Que é isto? A princípio pensei que fosse mentira, uma vez que a gala realizou-se no 1º de Abril, mas depois quando vi a seriedade com que as pessoas encaravam a situação fiquei seriamente preocupado. É a completa estupidez, neste impasse para o ano temos o globo de ouro para o actor/actriz mais atraente, para o actor/actriz mais desavergonhado e para o actor/actriz mais popular ou mais amado... Eu não percebo...

Bem, não me apetece escrever mais, só para que conste, não vou rever o que acabei de escrever, vou publica-lo, e só o lerei quando já estiver disponível para todos. Provavelmente apaga-lo-ei porque não deve fazer sentido nenhum e deve ser macabramente fastidioso pelo que estou certo que só os mais fortes, só os mais resistentes é que conseguiram ler estas últimas linhas. Vou-me despedir porque isto não é um artigo comum. E assim vivemos... Boa noite.

17 de fevereiro de 2007

Indicações

Tenho visto ultimamente algumas séries cómicas norte-americanas e descobri nelas algo que me irrita profundamente: todas elas dizem ao telespectador quais são os momentos com piada, ou seja, aparecem gargalhadas em segundo plano no decorrer da série.
E isso irrita-me tresloucadamente.
Irrita-me porque eu não quero saber quando é que o autor achou que aquilo tinha piada, eu quero é rir-me e não me sentir estúpido quando as gargalhadas surgem e eu não percebo porquê. Irrita-me também porque o facto de surgirem gargalhadas serve de dissimulação para a fraca piada que surgiu, ou seja, o espectador está à espera do momento em que as gargalhadas surgem, de modo a rir-se e a não parecer estúpido, que não presta atenção à péssima qualidade humorística do programa.
No entanto, nem só de irritação se faz este texto, também nele vai surgir a preocupação.

Sim, estou preocupado porque, como as televisões portuguesas são peritas em optimizar o uso das técnicas que possuem, muitas vezes torpemente, qualquer dia vamos estar a ver o telejornal e a meio surgirão sons de entusiasmo, quando se falar do Mickael Carreira, sons de preocupação, quando se falar na senhora que perdeu 10 galinhas, e sons de choro quando se falar no estado da nação. Penso que de hoje a esse dia, falta muito pouco tempo.

E desta maneira a televisão caminha a passos largos para dias cada vez mais gloriosos!

E assim vivemos...

26 de janeiro de 2007

Um Parêntesis

António Lobo Antunes defende que os mais infelizes são os invejosos porque vêem aqueles que invejam a triunfarem e a serem bem sucedidos.
Discordo. Os mais infelizes são, por razões óbvias, os perfeccionistas.

21 de janeiro de 2007

Nozes e dentes

Não sei se o leitor já ouviu o provérbio "Deus dá nozes a quem não tem dentes". Eu já o tinha ouvido várias vezes e hoje ouvi-o outra vez. Nada de anormal, o problema é que hoje reflecti sobre ele e cheguei à conclusão de que está completamente mal construído, que parece muito bom e aplicável uma miríade de situações, mas não. É um provérbio falacioso. Pensemos então:
1. ninguém parte uma noz com os dentes, quanto muito, esmaga-a com o pé e depois retira-lhe o miolo;
2. mesmo sem dentes e sem querer sujar as solas, posso ter um quebra-nozes, continuando a usufruir das propriedades da noz.
Como vemos, é um provérbio que metaforicamente diz muita coisa, mas a metáfora é um pouco fraquinha. Portanto aviso já a sabedoria popular para deixar de se meter em tudo. Pode saber de cozinha tradicional e de algumas coisas da vida, mas de literatura não sabe, e exemplo disto é a pobreza metafórica deste provérbio. Proponho então que se diga "Deus dá coisas a quem não as sabe usar" ou mesmo "Deus dá canudos a quem não sabe nada", sei lá, escolha você mesmo…


Assim vivemos... em 2007?

29 de dezembro de 2006

E fez-se luz! Que mau...

É impressionante a maldade que o ser humano encerra! Depois de deturpar o Natal com competições para ver quem recebia mais e melhores presentes, brinda-nos com um novo tipo de modalidade natalícia: as luzes! Sim, é verdade, agora competem para ver quem consegue ornamentar a casa com o maior número de luzinhas. É que quem ganhar a medalha de ouro aparece no Jornal Nacional...

E assim vivemos...

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Se não nos "virmos" mais: Bom Ano Novo!

4 de novembro de 2006

Corrupção?!

Longe vão os tempos em que cada um nascia com consciência. Digo isto porque no nosso tempo a consciência é deitada de lado em prol de benefícios materiais.
De facto, já ninguém se preocupa com a maneira como consegue o que quer. Tudo é lícito quando há um objectivo a atingir. O facto mais preocupante desta situação é que há pessoas dispostas a corromper e pessoas dispostas a ser corrompidas.
Hoje não é difícil passar por cima de umas quantas leis se tivermos algum dinheiro para "investir"; não é difícil anular uma multa de trânsito; não é difícil fugir a um processo judicial. Hoje em dia basta ter dinheiro, porque no fim de contas, é só isso que importa.

28 de outubro de 2006

Gramática

Será correcto dizer que o verbo vestir é reflexo? Penso que não. As pessoas já não se vestem, deixam os outros vesti-las...

E assim vivemos...

15 de outubro de 2006

O talher

É-me complicado falar do talher porque se cometo alguma falha tenho amanhã a Paula Bobone a denunciar-me ao 24 horas, mas adiante.
O episódio que se segue é verídico e passou-se quando eu ainda só usava uma mão para contar a estória da minha vida. Nessa altura estava a aprender a usar o talher, não que achasse necessário, pois a colher para mim era como um canivete suíço, mas porque a responsabilidade da idade assim o exigia. Embora já levasse muito tempo a observar o uso correcto do talher, o meu vício de comer com apenas um utensílio fez-me fazer várias experiências, experiências essas que me levaram a escrever hoje.
Primeiro comecei a comer só com o garfo. Era porreiro, mas das duas, uma: ou alguém me cortava as coisas ou então tinha de as comer esmagadas, quase inteiras. Aborrecido com a falta de potencial do garfo para ferramenta única à hora das refeições, procurei usar a faca. Também se conseguia comer. Com a faca conseguia levar os alimentos à boca e muitos desses alimentos podiam ser cortados apenas com ela. No entanto havia sempre qualquer coisa que requeria o uso do garfo para ser cortada. Estes caprichos dos alimentos fizeram-me usar o talher. A minha mania foi vencida pela forte ligação entre duas coisas que só juntas e a exercerem as suas respectivas funções é que fazem sentido.
Finalmente tinha percebido que para minha maior comodidade tinha de usar o talher, com a faca a cortar e o garfo a transportar os alimentos até à boca. Vi também que mesmo estando juntos, se o garfo cortar e a faca transportar, o talher não tem 100% de funcionalidade.
Tal como o talher, é o homem e a mulher.


E assim vivemos...

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Feministas que querem mais do que igualdade de direitos escusam de dizer qualquer coisa.

1 de outubro de 2006

Chantagem

A chantagem é, na maioria das vezes em que é usada, considerada moralmente inválida. Quando chantageamos alguém, deixamo-lo ou -la com duas opções apenas, quando a imaginação com que cada ser humano nasceu podia resolver o problema por uma terceira via.
Mas, se a chantagem é condenada, por que é que é usada todos os dias por pais sem paciência para pensar nos estereótipos educacionais que usam? De facto, e se pensarmos bem, pelo menos os que têm filhos, a chantagem é na maioria das vezes o persuasor mais eficaz para que os filhos comam a sopa, vão para a cama cedo, tomem banho ou deixem de dizer palavrões.
Penso que não haveria tanta chantagem se cada um de nós não fosse obrigado a conviver com ela desde tenra idade. Porque hoje dizemos: "Ou comes a sopa, ou não comes mais rebuçados."; amanhã dizemos "Ou vais fazer os trabalhos de casa, ou ficas sem televisão uma semana" e uns anos mais tarde são eles que nos dizem "Se não param de dar palpites sobre a minha vida amorosa, saio de casa!"

E assim vivemos...

13 de setembro de 2006

Correcção ou Incorrecção, eis a questão.

Se 1+1 é 2, logo 2 é 1+1.
Se recordar é viver, logo viver é recordar. E viver não é recordar, viver é simplesmente...viver! E recordar não é viver, é apenas recordar. Porque viver vai muito para além de recordar e recordar está muito àquem de viver.

E assim vivemos...

9 de setembro de 2006

O que se vai passar.

Quando vais ao cinema ver um filme que já viste com alguém que ainda não o viu, tens aquela tendência de chamar a atenção da pessoa que vai contigo para as partes que mais gostaste e para o climax do filme. Quando começas a fazer isso, o que ouves do outro lado é sempre: "Cala-te! Não contes como é o filme, assim não tem piada!"
Quando chegas cá fora, vais ao quiosque comprar pastilhas elásticas e a pessoa que está contigo compra logo uma revista qualquer que adianta os acontecimentos das novelas que esta anda a acompanhar. Afinal como é? Querem ou não saber o que se vai passar?

E assim vivemos.

6 de setembro de 2006

Visto daqqui nº 1

(Aqqui há um local onde as coisas são vistas de um prisma completamente diferente. No espaço "Visto daqqui" vou procurar mostrar esse prisma.)


Os livros não se devem devorar. Se o fizermos, pouco ficamos a perceber dele.

Daqqui vê-se assim

E assim vivemos... (e vêmos)